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Nova invenção portuguesa: não, obrigado!
Contribuído por jmce em 05-08-01 18:43
do departamento índios-piratas-totens-e-paradigmas
Musica Os indígenas criaram mais um totem, o Totem Maestro. Cyclops explica: "Temos uma nova invenção nacional: um fabuloso quiosque para estar em lojas de venda de música, que permite que sejam feitos no momento CDs com as músicas escolhidas pelo cliente, prevendo-se que o preço seja o do custo individual da música. Até aqui tudo bem, contudo, quem usar este sistema, deixará de poder fazer (supostamente, pelo menos, pois a realidade prática e legal é outra) cópias de preservação, para um media pessoal mais conveniente etc. Podem ler algo mais neste artigo no Expresso." [desenvolvimento no desenvolvimento]

[Cyclops continua:]

Um excerto para terem a certeza de que não deliro:

Uma das questões mais controversas na distribuição digital de música é a dos direitos de autor, que o sistema «Maestro» prevê integrando um sistema de DRM (Digital Rights Management). Trata-se de uma plataforma de ligação directa entre os retalhistas e as editoras por forma a controlar os «downloads» de músicas feitos. O DRM garante que cada ficheiro de música só pode ser descodificado com uma autorização, ou uma «chave», concedida pelas editoras. Estas, por seu turno, além de terem o problema da pirataria resolvido, encontram na solução uma eficaz redução dos custos.

Ou seja, não só deixamos de ter CDs standard, como ainda por cima vamos ouvir música apenas num formato proprietário e cujo objectivo é por fim a cópia legítima de música? Quer dizer, para fazer algo para o qual dispomos (a um preço razoável) de meios para o fazer calmamente em casa e sem perder o direito à cópia legítima, numa loja vamos perder a liberdade de copiar uma música, e ainda têm o atrevimento de considerar que são só vantagens para o consumidor final?

Mas não é só nisto que se revela uma invenção digna de escárnio... é que estes senhores têm a distinta lata de alegar ter "desenvolvido um paradigma na distribuição digital de música, baseado num modelo de negócio que faz com que o preço final dos CD custe cerca de 35% menos".

Paradigma na distribuição? Paradigma é o da música partilhada que se tem desenvolvido em redes p2p, não dividir os 3500$ pelas 12 a 20 tracks áudio que um CD costuma trazer, e nem ao menos gravam as tracks de áudio normais mas sim ficheiros com uma "anti-cópia" (muahahha) chamada DRM... Fazem uma cópia com perda de qualidade de som, perda de liberdades fundamentais, e ainda por cima alegam serem vantagens para o consumidor? E 35% menos aonde, dado que alegam que "o preço a pagar não será mais do que o somatório do custo individual de cada música", e tendo em conta que estão a gravar um CD de dados que pode ser comprado por 70$ na loja mais próxima, pelo que ainda por cima não temos o CD de alta qualidade nos quais normalmente são gravados os álbuns?

Digo-vos não! Não comprarei, não usarei, e não vou recomendar a ninguém, lixem-se! Os piratas copiam na mesma, e quem se vai lixar com este sistema é o consumidor legítimo.

Será que não basta já ter que pagar um preço mais elevado por CD (nós temos uma taxa preventiva das quebras de copyrights ao comprar CDs virgens)?

Cumprimentos, do vosso...

.

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  • neste artigo no Expresso
  • Mais acerca Musica
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  • Esta discussão foi arquivada. Não se pode acrescentar nenhum comentário.
    Eu também não! (Pontos:1)
    por toze em 05-08-01 19:28 GMT (#1)
    (Utilizador Info) http://mega.ist.utl.pt/~tozevv

    O que ganha o cliente com isso? Nada? É escusado ficar tão aborrecido: o mercado costuma estragar esse tipo de planos.

     
    Tó-Zé 'Senador'
    DRM é só no servidor... (Pontos:2)
    por jneves em 05-08-01 21:20 GMT (#2)
    (Utilizador Info) http://silvaneves.org/
    Pelo que leio, o sistema de DRM (Digital Rights Management) é, na práctica, um sistema de segurança que permite à editora saber quem faz o download de cada música (neste caso o quiosque). Não há nada na notícia que me faça pensar que o CD não seja perfeitamente normal.

    Uma possível expansão do sistema para downloads feitos e pagos directamente pelas pessoas não funciona à partida, porque todo o sistema assume que o quiosque apaga a música depois de a gravar.

    Na práctica, não há quaisquer garantias contra a pirataria, mas a quem é que isso interessa quando quaisquer proteções contra a pirataria resultam, na prática, na limitação da utilização de direitos concedidos ao cliente final pela legislação de direitos de autor ?

    Re:DRM é só no servidor... (Pontos:2)
    por Cyclops em 06-08-01 13:45 GMT (#12)
    (Utilizador Info)
    Admito poder estar enganado, mas tenho a ideia de que o DRM tambem envolve as "marcas de agua" nas musicas (aquela treta do SDMI) dai um formato com menos qualidade de som. Se assim nao for, mea culpa, mas parece-me que sim.

    As editoras querem o DRM nao por causa das lojas com estes quiosques, porque se uma loja destas faz pirataria, nota-se, mas sim por causa das musicas que saiem para o consumidor, e interessa-lhes ter os consumidores a pagarem todas as copias que fizerem.

    Gostei da pergunta retoria do fim :)

    Hugs, Cyke
    direito fundamental (Pontos:2)
    por joao em 06-08-01 0:10 GMT (#3)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    Fazem uma cópia com perda de qualidade de som, perda de liberdades fundamentais, e ainda por cima alegam serem vantagens para o consumidor?

    Gostava de saber qual é a teoria que te leva a considerar a cópia privada como um direito fundamental.

    Mas mesmo que consideres o direito à cópia privada um direito fundamental, este sistema nunca poderia violar esse direito. Tu continuas a tê-lo. Se conseguires violar as protecções contra a cópia para fazeres cópias privadas não cometes nenhum crime (isto se a lei geral não considerar a cópia privada, o que parece que ainda é o caso).

    Mas o teu direito à cópia privada não obriga nunguém. Isto é, toda a gente tem o direito de produzir e vender CDs com mecanismos que impeçam a cópia privada.

    Como já foi largamente discutido aqui noGildot, não confundas o teu direito à cópia privada com a garantia de que terás os meios para o fazer.

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura

    Direitos fundamentais (Pontos:2)
    por jmce em 06-08-01 3:37 GMT (#4)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/
    Por curiosidade: gostava de saber quais direitos consideras fundamentais, e que teorias (ou não-teorias) te levam a considerar esses direitos como fundamentais. Até pode ser um artigo para discussão no Gildot :-)
    Re:Direitos fundamentais (Pontos:2)
    por joao em 06-08-01 10:51 GMT (#8)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    Não estou a dizer que a cópia privada não é um direito fundamental. É uma consequencia do direito à liberdade que é um direito fundamental. Gostava era de saber qual o raciocínio que levou o autor original a concluir que a cópia privada é um direito fundamental mas a produção de CDs encriptados não é. Quer-me parecer que o raciocinio que te leva a concluir que a cópia privada é um direito fundamental também te leva a concluir que cada um tem o direito de produzir produtos que impeçam ou dificultem essa cópia.

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura
    Re:Direitos fundamentais (Pontos:1)
    por k em 06-08-01 11:58 GMT (#10)
    (Utilizador Info)
    Creio que por lei podemos fazer as cópias que nos apetecer para consumo próprio desde que tenhamos em nossa posse os originais (ie não é ilegal fazer uma cópia de um cd para ouvirmos no leitor de cassetes do carro, não é ilegar fazermos uma compilação de músicas de cds nossos - independentemente do formato).

    Creio é que não se podem usar os dois (cópia e original) em simultâneo.
    --
    k

    Re:Direitos fundamentais (Pontos:1)
    por jmce em 06-08-01 9:47 GMT (#7)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/
    More stupid, less stupid or as stupid as the one about private copying? Stupid in what sense? Got any theory on stupidity? :-)
    Re:direito fundamental (Pontos:2)
    por Cyclops em 06-08-01 14:06 GMT (#14)
    (Utilizador Info)
    Chama-se a pratica das liberdades civis que existem, e que nao interessam as companhias e editoras. Nao e uma teoria, e um direito protegido (ainda) na nossa lei, por exemplo.

    E a liberdade e um direito fundamental de qualquer pessoa, que so e removida em determinadas alturas (sentencas judiciais, actos criminosos ou de terrorismo, etc).

    Tu compraste uma musica, que veio num formato. Esse formato pode nao te ser conveniente em dada altura. Se tens a possibilidade de converter esse formato, podes exercer a liberdade de copiar para o formato que te for mais conveniente, seja para ouvir, backup, etc. Se nao tivesses meios para o fazer, nao faria sentido poder usufruir dessa liberdade. Mas como podes cantar a musica, assobia-la, gravar para outro cd, gravar para ogg, mp3 e outros, podes usufruir a liberdade tao inconveniente para as editoras.

    Aqueles novos formatos esquesitoides de cd's que, consta o rumor, andam a ser colocados as escondidas no mercado, chamam-se CD's, mas nao deviam, pois nao respeitam o standrd definido. Assim estas a comprar nao um cd com sistema de prevencao de copia, mas sim uma coisa parecida com um cd, que, ao que parece, ainda por cima pode por em causa a integridade de alguns amplificadores/colunas e outro material hi-fi mais sensivel.

    A garantia de que terei meios para exercer as minhas liberdades nao tem nada a ver com o assunto. A liberdade de fazer qualquer coisa termina quando entra em confronto com a liberdade dos outros. Se uma companhia tenta vender um producto aldrabado (um "cd" estranho) que nao me permite usar as ferramentas, esta a atentar contra a minha liberdade de copiar a musica para uso privado. Poderias argumentar que a minha liberdade infringe a liberdade de ganhar dinheiro das editoras, talvez sim, so que uma empresa nao e uma pessoa, e por isso o argumento nao se aplica. As empresas teem limitacoes legais as suas praticas precisamente para proteger o consumidor dos abusos.

    O abuso da liberdade de copia (usando objectivos lucrativos que nao compensam os artistas/editoras) ja e punido por lei ha muito tempo, agora as editoras pretendem impedir as liberdades que vamos podendo readquirir com o surgir de tecnicas que nos permitem exerce-las.

    Hugs, Cyke
    Re:direito fundamental (Pontos:2)
    por joao em 07-08-01 10:22 GMT (#18)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    A proibição de formatos protegidos contra cópia infringe a minha liberdade de distribuir a minha propriedade intelectual no formato que eu bem entender. Se me apetecer gravar um disco, se me apetecer gava-lo num formato que impede a cópia e se outro gajo qualquer lhe apetecer comprar o meu CD, estamos proibidos?

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura
    Nao estou a ver o valor comercial disso... (Pontos:2)
    por TarHai em 06-08-01 12:01 GMT (#11)
    (Utilizador Info) http://www.dilbert.com
    Imaginemos um adolescente tipico que deseja comprar a musica do top. Em vez de comprar um CD inteiro por ~3.5 contos, compra so uma das musicas (a do top) por 350$.

    Nada mau, sai quase ao preco de custo de um CD virgem! Se acrescentarmos que nos CDs da moda, tirando a musica que passa no top/radio o resto das musicas e so para gastar tempo no CD, temos um excelente negocio para o consumidor.

    Ja estou a ver as editoras a espernear porque em vez de venderem 10 CDs da moda a 3.5 contos cada um, vendem 10 musicas de 10 CDs a 350$ cada. E um decrescimo 10x no valor das vendas.


    ---
    who cares ? (Pontos:1)
    por gractalfuru em 06-08-01 21:17 GMT (#15)
    (Utilizador Info)
    Who da hell cares about diz ? :)
    Quer-se a musica livre e mais nada... enquanto nao arranjarem maneira de evitarem a passagem para som analogico a pirataria de musica sera inevitavel...
    O mais interessante é que nao será preciso chegar ao ridiculo de tarmos a passar o som para sinal analogico porque ha muito dinheiro à volta da musica (tanto do lado legal como do lado ilegal) e portanto como ha massa em jogo vai haver sempre quem tenha interesse em quebrar as proteccoes e como todos sabemos as proteccoes quebram-se, demoram mais dia menos dia, mais mes, menos mes...
    Tentarem evitar a pirataria é uma luta perdida... Os executivos da treta ainda nao se deram conta, e so vao dar-se conta quando enterrarem uns largos milhares, que afinal sao nossos , dos consumidores que pagaram um balurdio por um cd de musica ( se virem bem, 2 cd's da para comprar um bom perfume, que é considerado artigo de luxo).
    Deviam era estar a preocupar-se com formas de incentivar o consumidor a comprar o original (precos mais baixos e nao so). Vejam o exemplo dos Daft Punk que usam um codigo para uma parte especial do website deles (se bem que com sorte geram-se codigos funcionais).
    A guerra da pirataria ja tem barbas e se olharmos para a historia (a historia serve para tirarmos licoes dela) a pirataria sempre venceu, nunca foi derrotada , apenas em parte abrandada....
    E depois estamos a distorcer todo o conceito de cd.... Suporte para musica de alta qualidade, que agora ta-se a tornar em suporte para cd's defeituosos e restantes invencoes pateticas :)

    Também não, idem (Pontos:1)
    por Ferreira.Correia em 06-08-01 21:21 GMT (#16)
    (Utilizador Info)
    Com efeito, não há vantagens. Provavelmente, o mercado deita para o caixote de lixo mais essa ideia magnífica. Felismente, há um direito fundamental que compete aos consumidres exercerem: comprarem conscientemente. Também não alinho nessa. Porém, o direito de fabricar músicas protegidas contra a cópia parece ter enquadramento legar e caber na noção de direitos fundamentais, designdamente direito de propriedade.
    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por jmce em 07-08-01 11:58 GMT (#22)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    Os direitos sobre uma obra publicada, pelo menos nos EUA e pelo menos nos primórdios, e provavelmente também cá, não são semelhantes aos direitos de propriedade sobre um objecto... "privado" (como uma casa ou uma cadeira).

    A ideia por detrás de muita legislação clássica neste domínio é equilibrar direitos do autor e dos leitores através de um "monopólio temporário", admitindo que as obras produzidas são um bem para a sociedade, e que portanto interessa promover a sua difusão e permanência, mas que ao mesmo tempo é importante recompensar e estimular o autor.

    Assim, as regras do jogo para um objecto publicado não são as mesmas de um objecto em uso privado, por se considerar que a natureza do objecto e os interesses em jogo são bem diferentes nos dois casos.

    Naturalmente, as editoras hoje em dia usam e abusam sistematicamente da expressão "propriedade intelectual", confundindo convenientemente nessa expressão conceitos muito diferentes, e aproveitam a palavra "propriedade" para defender que podem fazer o que lhes apetece com as obras publicadas. Em particular, instituem por meios tecnológicos restrições que a lei não fazia. E em alguns sítios acabam por conseguir aprovar leis (como o DMCA) que impedem o consumidor de contornar essas medidas tecnológicas. Assim, em vez de mudarem as leis sobre o uso das obras publicadas, conseguiram licença para tecnologicamente definir em cada momento o que o consumidor é ou não livre de fazer. Conseguiram uma meta-ferramenta legislativa, que contorna a lei original e o espírito dessa lei.

    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por joao em 07-08-01 16:02 GMT (#23)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    Colocas mal a questão porque a colocas no âmbito dos "direitos do consumidor" versus "direito das editoras". Criticas as editoras porque "instituem por meios tecnológicos restrições que a lei não fazia". Mas esse é um direito individual do autor que ninguém lhe pode tirar. Tu podes distribuir a tua propriedade intelectual como bem entenderes, inclusivé, encriptada.

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura
    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por jmce em 08-08-01 1:23 GMT (#24)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    A questão de uns versus outros direitos, tal como a coloquei, está muito longe, por exemplo, da até há pouco tempo consagrada em muita legislação de muitos países?

    Leste mal o comentário? Lê de novo. Seja ou não na prática um "direito individual do autor" (ah, como se fala tanto no autor seguindo uma agenda que é essencialmente da editora), critico sim. Mas o problema principal não é esse. O problema é quando as editoras conseguem na prática fazer lei, através de uma protecção legal que impede o utilizador de, pelo seu lado, contornar a cifra delas. Ao lado de uma lei que equilibra direitos, temos outra (DMCA, por exemplo) que a aniquila. Uma coisa é eu cifrar um trabalho meu com qualquer engenhoca que tenha inventado, outra é depois usar isso como cavalo de Tróia para matar os direitos anteriores do leitor: ele tem o direito de "fair use" mas não tem o direito de contornar, nem sequer de discutir, a minha cifra, dado que isso é crime. E pronto, com a generalização desta prática e a lei a levar a editora ao colo, o "fair use" vai pelo cano abaixo. Vais defender as editoras com o que já se tornou aqui o chavão multi-usos da diferença entre direitos e garantias? Claro que posso sempre usar o mesmo chavão para responder que não temos que garantir à editora, em lei (tipo DMCA), que a sua cifra resulta.

    Quanto ao direito individual do autor... em que países e épocas? Assimilação ao conceito de "propriedade" em que países e épocas?

    Também usas a expressão "propriedade intelectual"; assim gostaria de saber o que entendes por "propriedade intelectual".

    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por joao em 08-08-01 9:41 GMT (#25)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    Do meu ponto de vista as coisas são muito simples. Eu escrvo um texto e digo:

    "Eu vendo-te este texto na condição de nunca ser copiado. Quem quiser compra, quem não quiser não compra"

    Pelo Fair Use eu não tenho o direito a fazer isto. Isto não é um direito de propriedade intelectual, é um direito a realizar contratos livres com outras pessoas.

    O facto de ao se falar em autor se seguir a agenda das editoras é irrelevante. Os autores não podem perder direitos por causa disso.

    Claro que se optares por defender os interesses dos ditos "consumidores" estas-te lixando para os direitos dos autores. Mas se pensares que o ideal seria que uma grande percentagem da população também fosse autora (estou a pensar num hipotetico novo renascimento intelectual potenciado pela net) então tens que concordar que os dreitos dos autores têm que ser defendidos.

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura
    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por jmce em 08-08-01 17:29 GMT (#26)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    A agenda das editoras é tudo menos irrelevante. Não sei se a tua agenda é de autor ou de editora (começo a ter curiosidade em saber), mas convém não esquecermos: a) quem está a promover novas formas de licenciamento; b) que interesses estão a ser defendidos; c) que direitos estão a ser atacados; d) que produção "intelectual" está de facto a ser promovida com todas estas alterações à paisagem.

    Apesar de um teu comentário anterior contra o DMCA, esta resposta deixa no ar a confusão sobre a tua posição: como eu disse, até separei a questão da liberdade de contrato de outra questão, que é a de uma lei como o DMCA anular direitos. Ou seja, o pior não é a liberdade de contrato, mas o extensíssimo poder dado por via legal aos detentores do que tu vês como "propriedade". Se estás lixando para o Fair Use, então o que falta para aclamares o DMCA?

    De qualquer forma, embora não me esteja lixando para os direitos dos autores em geral (esses violinos e insinuações generalizantes começam de facto a soar como os das editoras), estou-me de facto lixando para esse direito e essa atitude anti-Fair-Use em particular, por o considerar uma defesa de limitação de direitos pintada com as cores da liberdade contratual.

    Os leitores (ditos "consumidores") também não podem perder direitos em nome desse hipotético "novo renascimento". Não chamaria "novo renascimento" a algo que fizesse o mundo ficar cheio de contratos desse tipo e portanto de licenças limitativas (aliás, nota-se bem a tentação geral para transformar a clássica "aquisição" de um texto ou obra musical num "licenciamento" efémero e restritivo). O melhor que temos na cultura mundial hoje em dia não precisou desse tipo de contrato, (frequentemente nem sequer precisou da noção de copyright) nem acredito que ele venha aumentar a percentagem da população a funcionar como autora. O que fica favorecido é a extensão infinita e arbitrária do copyright e a concentração da (chamemos-lhe assim enquanto não explicas o que queres dizer com ela) "propriedade intelectual" nas mãos de grandes grupos.

    Como autor, suponho que não cries a partir do nada, logo consultas, citas e constróis sobre o trabalho de outros. Isso é perfeitamente natural e saudável, mas corremos o risco de ser visto como crime. Boa sorte para o nonio.com quando a "liberdade contratual" esmagar o Fair Use, no que tu escreves e no que os participantes do fórum escrevem. Talvez um dia quando a Nature falar novamente dos algarismo de Pi não te reste grande escolha senão "licenciar" um bocado rasca dos factos citados: não havendo Fair Use, porque não há-de a Nature deixar-te referir até a factos sobre Pi apenas na condição de participar dos teus eventuais ganhos? E havendo liberdade para fazer contratos desses, que grande detendor de conteúdos não o fará? E se a pequena concorrência não os fizer, onde acabará a concorrência?

    Pelo que dizes, os EUA teriam as condições para estar a passar por esse tal Novo Renascimento. Na minha talvez desinformada opinião, parecem estar a passar por um Enorme Pesadelo, especialmente do ponto de vista dos pequenos autores face às grandes editoras ou empresas em geral. Veja-se o exemplo já clássico dos ataques asquerosos por causa de nomes de domínios em uso há muitos anos, e que de repente uma empresa grande decide que é parte da sua... "propriedade intelectual", quando o detentor do domínio não o usa para nada a ver com o trabalho da tal empresa, frequentemente nem sequer com fins lucrativos. Veja-se o caso dos ataques proporcionados pelo DMCA: DeCSS, Skylarov, ... Tens dados que te permitam justificar a teoria do Novo Renascimento?

    Poderá parecer a ti o Novo Renascimento se os teus interesses estiverem do outro lado, claro. Reparei que o nonio.com tem a barrinha "PT Digital" (recortes et al), mas não me dei nunca ao trabalho de perceber o que é a "PT Digital". Se for uma iniciativa comercial, claro que até podes gostar da ideia do arranjinho com a Nature de que falei acima, em nome, claro, da "liberdade contratual". Mas porque é que o nonio.com está a promover o aparecimento de documentos com licença GNU FDL se as tais limitações é que proporcionariam o... Renascimento? A FDL não é apenas boa para um leitor/utilizador final, mas também para um novo autor.

    Será que o Renascimento (incluindo algumas das melhores coisas que têm aparecido nos EUA) não vem de outro lado, nomeadamente do material LIVRE (e não estou a falar do material simplesmente grátis como o dos jornais) que povoa a Internet? Também com a barrinha da "PT Digital", a Recortes abriga um artigo do Paulo Querido que defende a cobrança de "taxas de conteúdos" pelos ISPs para distribuir por algumas corjas de fornecedores de conteúdos aliados em grupos de pressão. Como certos fornecedores de conteúdos sabem que ninguém pagaria pela tralha deles num mundo aberto, e não são capazes de fazer o respectivo conteúdo valer o suficiente para interessar os leitores pelo micro-pagamento, querem agora colocar em cima dos ombros dos ISPs cobranças obrigatórias, como se todos os clientes do ISP achassem oh-tão-importantes os sítios que recebem o pagamento. Isto seria a TV-cabização da Internet, nomeadamente desfavorecendo quem não pertence ao Clube e e eventualmente operando no sentido de restringir a diversidade. O fim do Fair Use é a TV-cabização do resto.

    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por joao em 08-08-01 19:56 GMT (#27)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    Vou tentar explicar a minha agenda. Na verdade, são duas agendas. A primeira é a de promover discussões racionais com argumentos sólidos. Não acho que o direito universal à cópia privada possa ser sustentado e apresentei os meus argumentos.

    A minha segunda agenda é fazer o que estou a fazer com nonio, mas com mais participantes. E é por isso que entrei na aliança Pt-Digital. Não tenciono vender o acesso a ninguém nem tenciono entrar em contratos de exclusividade com ISPs. Pretendo apenas que a participação dos leitores seja suficiente para manter o site de modo a que eu não tenha que perder mais que meia hora por dia com ele. Caso os custos de manutenção aumentem, espero não ter que pagar do meu próprio bolso. Como vês, objectivos modestos.

    Eu não acho que o copyright vai impulsionar um Novo Renascimento. O novo renascimento, se alguma vez acontecer, acontecerá por causa de projectos como a wikipedia. Em pouco mais de 6 meses um pequeno grupo de voluntários já escreveu mais de 7000 artigos, tudo GPL.

    A TV-cabização da Internet já é um problema, principalmente em Portugal onde as grandes empresas de conteúdos controlam os ISP. Os únicos grandes sites que escapam ao controlo de um ISP devem ser os jornais desportivos, o expresso e o Terravista (que nem sequer é português).

    Qual é o erro que os grandes sites estão a cometer? Eles estão convencidos que a web é igual à televisão. Qual é a melhor forma de os combater? Mostrando à pessoas que a web, ao contrário da televisão, também serve para escrever e criar coisas. Esta táctica tem a vantagem de te garantir muito mais pageviews.

    Porque é que eu promovo a FDL? Porque se as pessoas participam num determinado projecto colectivo e voluntário têm que ter garantias de que ninguém se aproveitará comercialmente dele e porque isso garante-me que o projecto será continuado por outros quando eu decidir fazer outras coisas. E também porque, com sorte, alguém ainda pega nos conteúdos e os devolve melhorados. A FDL tem ainda um conjunto enorme de outras vantagens: o número de links para o site aumenta (óptimo para aparecer no topo das pesquisas do Google), a cultura propagasse de forma viral e as pessoas simpatizam com a ideia e colaboram.

    Li o artigo do Paulo Querido. Ele está a sonhar. Porque é que os grandes aceitariam a Recortes no clube se qualquer gajo cria um site como o Recortes em meia hora?

    O perigo para os conteúdos livres não está numa ideia desse género. Está na tentação por parte de determinados ISP de cortarem o acesso aos sites livres.

    Falta dizer que nunca terei falta de conteúdos para o nonio. Bastaria traduzir todos os artigos da wikipedia, que são free, para ter conteúdos para 10 anos. Mesmo assim, existem muitas pressões por parte de cientistas para tornar os artigos científicos mais acessíveis ao público.

    Quanto à DMCA, parece uma lei ridícula porque limita a propagação de informação que possa comprometer a segurança dos sistemas de protecção. Mas eu não conheço os detalhes.

    ----
    joao
    nonio.com - ciência, tecnologia e cultura

    Re:Também não, idem (Pontos:2)
    por jmce em 08-08-01 21:38 GMT (#28)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    Infelizmente, esta e outras discussões anteriores convergem (com culpa minha também, claro) num ping-pong retórico sobre palavras que começa a ter cada vez menos discussão racional e argumentos sólidos, nomeadamente com falta de recurso a dados factuais. Por isso tentarei evitar o regresso a elas nesta base, até pela inutilidade e futilidade para os leitores do Gildot.

    Para terminar, completamente de acordo quanto à FDL e à promoção da explosão descentralizada do número de autores com a ajuda da Internet. Mas precisamente por isso, e essa poderá ser a grande diferença de opinião, abomino qualquer ataque ao fair use como algo extremamente pernicioso para esse objectivo, em vez de (como antes percebi do teu comentário) o ver como algo a funcionar no sentido de ajudar a explosão. Não vejo onde foi demonstrada a insustentabilidade do direito universal à cópia privada... mas talvez não valha a pena continuar aqui o ping-pong. Creio que qualquer dos pontos de vista se explicaria melhor (e com o tempo mais bem aproveitado) em artigos pensados com calma do que no prolongamento desta discussão. Eventualmente no próprio Gildot.

    A little bit offtopic (Pontos:1)
    por Castanheiro em 07-08-01 11:27 GMT (#20)
    (Utilizador Info) http://students.fct.unl.pt/users/fdc10056
    Não sendo eu um expert nesta matéria, elucidem-me duma coisa. Não estará qq tipo de protecção contra cópia que as editoras queiram implementar morto logo à nascença devido aos biliões de leitores de cd's actuais não suportarem nada disso? Ou as editoras estão a pensar meter requisitos minimos nos novos cds? "Para ler este cd precisa dum leitor xpto e uma cópia do Media Player".

    Resumindo: QQ cd que possa ser lido pode ser copiado (right?), um cd para ser compativel com os leitores antigos pode ser lido em qq lugar sem restrições logo pode ser copiado (right?).
    O egoísmo dos "espertos"... (Pontos:2)
    por jmce em 06-08-01 11:44 GMT (#9)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    Podes dar-nos informações mais detalhadas sobre a ilegalidade da cópia privada (por oposição a (abomino o termo) "pirataria")? Estás a confundir tudo de propósito ou por descuido?

    A minha experiência é que este tipo de discurso vem precisamente das pessoas que mais se estão nas tintas para a lei, desde que ninguém os vá chatear. Estão-se nas tintas para a evolução das leis, para eles está sempre tudo bem, quando ninguém "importante" está a ver desprezam os regulamentos, e adoram insinuar que os outros ainda são piores que eles. Fazem-no com a cópia mas fazem-no também em questões de vida ou de morte --- nomeadamente, na estrada.

    Tu se fizesses um programa/jogo/música não querias que o copiassem indiscriminadamente? Mas copias indiscriminadamente os dos outros? Ah, percebi. A lei é para te servir a TI... Há quem goste das repúblicas das bananas por isso mesmo...

    Re:O egoísmo dos "espertos"... (Pontos:2)
    por joao em 06-08-01 13:46 GMT (#13)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    A questão é que numa discussão deste género, a discussão do que deve ser a lei tem que ser completamente separada das pessoas que a discutem. Caso contrário acabamos a discutir os podres uns dos outros. A polícia existe precisamente porque as pessoas concordam com a lei (no abstracto) mas não a praticam (no concreto). Há coisas que não vão lá com moralismos. É preciso uma autoridade central que zele pelo cumprimento das leis.

    Trazer moralismos para uma discussão sobre como deve ser a lei raramente é produtivo. O argumento da hipocrisia, tipo "tu dizes isso, mas fazes o contrário" é falacioso e ele próprio hipócrita (quem é que num momento da vida não fez algo que , quando ponderadas as coisas de forma abstracta, considerou errado?)

    ----
    joao
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    Re:O egoísmo dos "espertos"... (Pontos:2)
    por Cyclops em 06-08-01 21:54 GMT (#17)
    (Utilizador Info)
    Penso que e na Casa da Russia, que se diz a determinada altura que o verdadeiro patriota, nao e aquele que respeita sempre as leis do pais, mas aquele que por vezes as tem de trair.

    Eu sou a favor do desrespeito civil pelo DMCA e semelhantes.

    Hugs, Cyke
    Re:O egoísmo dos "espertos"... (Pontos:2)
    por jmce em 07-08-01 11:01 GMT (#19)
    (Utilizador Info) http://jmce.artenumerica.org/

    Aquele "moralismo", se se quiser chamar-lhe assim, não entrou aqui como parte da discussão da lei, mas como referência à indiferença ou desprezo de algumas pessoas perante certas questões legais.

    Não falei das leis em si mas das atitudes das pessoas perante as leis que vão sendo feitas, nomeadamente atitudes de indiferença que acabam por facilitar a criação de muita legislação. A indiferença e a ignorância são potencialmente perigosas para as nossas liberdades (e não só), tanto mais quanto mais generalizadas.

    O meu comentário referia-se apenas ao facto de ter muitas vezes verificado que a indiferença perante legislação como a que está aqui em causa e uma confusão abrutalhada das noções de "pirataria" e "cópia privada" vem frequentemente de pessoas cuja atitude pela lei é predominantemente a que eu referi. Isto não pode ser nem pretende ser uma generalização, mas mal estaremos se no Gildot só pudermos falar a níveis mais universais e não pudermos referir o nosso pequeno canto do universo.

    Não usei um qualquer "argumento de hipocrisia" para discutir a lei em si. E nem me esqueci (obrigado por me lembrares, mas não era necessário) de que todos temos defeitos e todos cometemos erros em alguns momentos, quer os consideremos como erros ou não.

    Assim, de um ponto de vista puramente técnico, se me disseres que não estou isento de hipocrisia posso perfeitamente desconsiderar o potencial insulto e ver a coisa como uma constatação dos defeitos humanos. E mais ainda aceitaria se me criticasses por eu estar a tentar julgar as intenções de uma pessoa concreta que nem sequer conheço.

    O que ofende, como indivíduo, e como parte da humanidade, é que me venham insinuar que chamar a atenção para casos de hipocrisia é necessariamente um acto contaminado por hipocrisia, ou mais em geral (se foi esse o caso) que todos sejamos hipócritas todo o tempo. Umas vezes sim, outras vezes não.

    Da mesma forma, algumas pessoas, apesar de todos os tais defeitos, acabam por cumprir leis --- não apenas leis de que gostam ou com que concordam mas mesmo leis que consideram injustas ou prejudiciais para elas próprias --- até quando não um risco de punição no horizonte. Eu conheço pessoas capazes disso, e espero que também tenhas a sorte de conhecer, qualquer que seja a tua posição numa discussão filosófica sobre a egoísmo e altruísmo. Como não é um comportamento universal (na sociedade e mesmo, quase sempre, numa única pessoa), sim, precisamos de quem zele pelo cumprimento das leis.

    Já agora, se é verdade que não bastam considerações moralistas baratas, também é verdade que, indo ao fundo das leis humanas, encontramos alguma consideração de "moralidade", seja em que forma for, de origem religiosa ou outra qualquer, como ponto de partida. No fim do dia, onde é que a matemática e a física e a biologia e a estrutura do universo e o nosso código genético nos dizem que não devemos matar o próximo? Ou, até, que temos, como sociedade, de considerar a liberdade do próximo como importante?

    Re:O egoísmo dos "espertos"... (Pontos:2)
    por joao em 07-08-01 11:49 GMT (#21)
    (Utilizador Info) http://www.nonio.com
    É claro que eu não quis ofender ninguém. Apenas quis lembrar que argumentos como o da hipócrisia não são produtivos e são falaciosos. O argumento da hipocrisia não resiste quando é aplicado a si próprio. E no fim acabamos todos a chamar-nos hipócritas uns aos outros.

    Factores como o altruismo só podem entrar na discussão no interior de uma comunidade e que toda a gente se conhece e existem laços fortes entre as pessoas, porque só nessas comunidades é que há controlo social e incentivo ao altruismo. Em comunidades maiores não há, e há uns fulanos que se aproveitam dos altruistas e contribuem com zero.

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    joao
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